Uma das redes farmacêuticas mais populares do país, reconhecida por sua forte presença no comércio eletrônico e pelos preços baixos, está no centro de um escândalo tributário de grandes proporções. A Ultrafarma é acusada de operar um sistema de vendas que sonegava até 60% do faturamento, numa estratégia que levantou questionamentos sobre a fragilidade da fiscalização e a impunidade de grandes empresas frente às regras do Estado.
A denúncia foi feita por Manoel Conde Neto, empresário do setor e ex-dono de uma rede concorrente, que ao colaborar com o Ministério Público afirmou que a concorrente praticava um nível de sonegação incomparavelmente maior do que o adotado em sua própria rede. Segundo ele, a Ultrafarma trabalhava de forma tão ampla na omissão de receitas que a prática tornou-se notória no mercado, desequilibrando a concorrência e gerando lucros muito acima dos parâmetros normais.
No centro da engrenagem está também a suspeita de um esquema bilionário de restituições fraudulentas de ICMS. Investigações apontam que um auditor fiscal estadual teria atuado como peça-chave dentro da Secretaria da Fazenda, manipulando pedidos de ressarcimento em troca de comissões que chegavam a 40% sobre os valores liberados. A Ultrafarma aparece como uma das empresas mais beneficiadas, com acesso privilegiado a certificados digitais que possibilitavam o envio de documentos oficiais em seu nome, ampliando ainda mais o alcance das operações.
A repercussão foi imediata: o fundador da rede foi preso, libertado após pagamento de fiança milionária e agora responde a processos que envolvem não apenas sonegação, mas também corrupção e associação criminosa. A situação atinge diretamente a credibilidade da empresa, que durante anos se consolidou no imaginário popular como sinônimo de preços acessíveis e democratização de medicamentos.
Outras grandes varejistas também foram citadas na investigação, revelando que a prática não se restringia a uma única empresa. Indícios de lavagem de dinheiro, uso de empresas de fachada e articulações financeiras sofisticadas demonstram que o esquema se espalhava por diferentes setores, com a conivência de atores públicos e privados.
A denúncia levanta uma reflexão inevitável: como um sistema tributário que pesa sobre pequenos e médios empresários, cobrando cada centavo devido, permite que gigantes do varejo eletrônico se beneficiem de brechas capazes de desviar bilhões? Para micro e pequenos comerciantes, qualquer irregularidade pode resultar no fechamento das portas; já grandes corporações parecem operar sob outra lógica, na qual recursos jurídicos e influência política ampliam a sensação de desigualdade.
O caso escancara, ainda, uma contradição: enquanto o discurso da Ultrafarma sempre esteve associado à popularização do acesso a medicamentos, a prática revelada indica que boa parte dessa vantagem de preços pode ter sido sustentada por mecanismos ilegais de sonegação e corrupção. A promessa de “farmácia do povo” revela-se, assim, um modelo ancorado em economia subterrânea.
Agora, cabe às autoridades avançar na apuração e assegurar que a aplicação da lei seja feita de forma equitativa, sem privilégios a grandes grupos econômicos. Mais do que punir responsáveis individuais, o desfecho deste caso servirá como teste para avaliar a seriedade do combate à sonegação no Brasil e a capacidade do Estado de garantir justiça tributária para todos.