Engenheiro civil defende uma agenda de infraestrutura baseada em ferrovias estratégicas, industrialização da construção, transformação digital e planejamento de longo prazo

Redação | Engenharia e Infraestrutura

O Brasil reúne algumas das condições mais favoráveis do mundo para ampliar sua competitividade econômica: território continental, abundância de recursos naturais, matriz energética relevante, grande mercado interno, capacidade agrícola, base industrial e posição estratégica no comércio global. Ao mesmo tempo, as dimensões do país tornam infraestrutura, logística e integração entre diferentes regiões elementos fundamentais para transformar esse potencial em produtividade.

Para o engenheiro civil Bruno Pasqualini Casado, o desafio brasileiro não está apenas na quantidade de obras, mas na necessidade de uma visão integrada de infraestrutura como instrumento de desenvolvimento nacional.

“O Brasil precisa parar de tratar infraestrutura como obra isolada e começar a tratá-la como projeto de potência. Não basta construir mais. É preciso construir com método, velocidade, governança e continuidade”, afirma.

A comparação com países como Singapura, Emirados Árabes Unidos e China aparece com frequência quando se discute capacidade de execução, transformação urbana e dinamismo da engenharia. Para Casado, no entanto, o Brasil não deve copiar modelos estrangeiros de forma superficial. O ponto principal é compreender a importância do planejamento de longo prazo, da decisão estratégica, da coordenação, da padronização, da tecnologia aplicada e da capacidade de execução.

“Quando se fala em Dubai, Singapura ou China, muita gente enxerga apenas prédios, portos, aeroportos e ferrovias. Mas a parte mais importante vem antes da obra: projeto, decisão, organização, financiamento, método e execução coordenada. A velocidade não nasce no canteiro. Ela nasce no sistema”, explica.

Para Casado, experiências internacionais de grandes projetos de infraestrutura também demonstram a importância de estruturar planejamento, pré-fabricação, logística, padronização e mobilização técnica antes da execução.

“Ninguém constrói rápido por milagre. Constrói rápido porque decidiu antes, projetou antes, compatibilizou antes, padronizou antes e organizou a cadeia produtiva antes. O canteiro não pode ser o lugar onde o país descobre os problemas que deveria ter resolvido no projeto”, afirma.

Na avaliação do engenheiro, a Engenharia Civil ocupa uma posição estratégica na competitividade econômica. Ferrovias, rodovias, portos, aeroportos, hidrovias, saneamento, energia, habitação e infraestrutura digital não representam apenas estruturas físicas. São sistemas que interferem diretamente no custo de produzir, transportar, exportar, morar, trabalhar e inovar.

“Não existe indústria forte com logística fraca. A infraestrutura influencia o custo real da economia. Quanto maior a integração entre planejamento, engenharia e logística, maior a capacidade de transformar investimento em produtividade”, destaca.

Uma infraestrutura pensada como rede

Casado defende que a expansão da malha ferroviária brasileira seja analisada com critério técnico e visão integrada de rede. Para ele, o objetivo não deve ser simplesmente aumentar a quantidade de trilhos, mas conectar regiões produtivas, portos, centros industriais, zonas agrícolas, polos minerais, hidrovias e terminais logísticos.

“Cada modal tem sua função. A rodovia é importante pela flexibilidade. A ferrovia é estratégica para grandes volumes e longas distâncias. A hidrovia pode ser extremamente competitiva em determinadas regiões. O porto é a conexão com o mundo. O desafio é fazer esses sistemas trabalharem de maneira cada vez mais integrada”, diz.

Essa lógica também exige planejamento de longo prazo. Projetos de infraestrutura podem atravessar diferentes ciclos econômicos e administrativos, tornando maturidade técnica, previsibilidade e continuidade elementos importantes para sua execução.

Industrializar para construir com maior previsibilidade

Casado também aponta a industrialização da construção civil como um dos caminhos para ampliar produtividade e previsibilidade no setor.

Isso envolve maior utilização de estruturas metálicas, pré-fabricação, construção modular, padronização, planejamento 4D, integração entre cronograma e custos, controle digital de qualidade e processos mais repetíveis.

“Cada projeto tem suas particularidades, mas isso não significa que todos os processos precisem começar do zero. A construção pode incorporar cada vez mais princípios industriais. O futuro passa por transformar obra em processo, e processo em sistema”, afirma.

A lógica está em transferir parte da complexidade do canteiro para etapas anteriores de engenharia e planejamento.

Quanto maior a capacidade de projetar, compatibilizar, testar e organizar previamente uma solução, menor tende a ser a necessidade de resolver problemas durante a execução.

Tecnologia a serviço da infraestrutura

Nesse contexto, a transformação digital assume papel relevante.

Autor de obra técnica sobre engenharia digital aplicada à construção civil, Bruno Pasqualini Casado acompanha ferramentas como BIM, Scan-to-BIM, ambientes comuns de dados, inteligência artificial e digital twins como instrumentos capazes de elevar a capacidade de planejamento e gestão do setor.

Para ele, porém, tecnologia sem governança da informação pode apenas acelerar decisões baseadas em dados inadequados.

“O país não precisa apenas de modelos digitais bonitos. Precisa de informações confiáveis, rastreáveis, auditáveis e úteis para tomada de decisão. BIM não deve ser visto como maquete digital. Deve ser tratado como infraestrutura de decisão”, explica.

Essa visão pressupõe que grandes projetos tenham requisitos claros de informação.

Quem modela? Quem revisa? Quem aprova? Qual versão está válida? Qual dado sustenta o orçamento? Qual modelo orienta o cronograma? Qual informação deve chegar à execução?

Essas perguntas se tornam cada vez mais relevantes à medida que os empreendimentos passam a produzir volumes maiores de dados.

“Sem organização, a digitalização pode se tornar apenas aparência de modernidade. Com governança, ela pode reduzir retrabalho, antecipar conflitos, melhorar a previsibilidade e criar memória técnica para o empreendimento”, afirma.

Inteligência artificial e qualidade da decisão

Casado também vê espaço para a utilização responsável da inteligência artificial na engenharia.

Ferramentas baseadas em IA podem apoiar análise de documentos, identificação de inconsistências, planejamento, orçamento, manutenção e gestão de riscos. A confiabilidade dos resultados, entretanto, permanece diretamente relacionada à qualidade das informações utilizadas.

“Se a informação de entrada é ruim, a inteligência artificial apenas responde rápido sobre uma realidade mal compreendida. A inovação real não está em usar tecnologia por moda, mas em melhorar a qualidade das decisões”, diz.

Na avaliação de Casado, uma agenda de infraestrutura capaz de ampliar a competitividade brasileira passa por projetos tecnicamente maduros, integração logística, industrialização da construção, gestão digital, previsibilidade regulatória e formação de mão de obra especializada.

Em vez de concentrar a discussão apenas na velocidade da execução, ele defende que parte significativa da eficiência seja construída antes do início das obras.

“Projetos de infraestrutura ganham previsibilidade quando planejamento, maturidade técnica e preparação antecedem a execução. Potência não se improvisa. Potência se projeta, se financia, se executa, se mede e se mantém.”

Concreto, aço, dados e decisão

Ao final, Bruno Pasqualini Casado resume sua visão em uma ideia central: o futuro da infraestrutura dependerá cada vez mais da capacidade de unir engenharia física e transformação digital.

“O Brasil não precisa escolher entre obra física e transformação digital. Precisa das duas. Precisa construir ferrovias, portos, cidades, saneamento e energia, mas também precisa construir dados confiáveis, projetos maduros e processos auditáveis. O país que conseguir integrar infraestrutura, tecnologia, indústria e governança terá vantagem no século XXI. Essa é a engenharia que pode ajudar o Brasil a ampliar sua competitividade.”

https://br.linkedin.com/in/bruno-pasqualini-casado-bb7710410 

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